EM DOSES HOMEOPÁTICAS
Menos românticas, ações ecológicas individuais propõem pequenas mudanças no dia-a-dia
FLÁVIA MANTOVANI MARCO DÁVILA
colaboração para a Folha da reportagem localSe a Terra fosse compreendida como um organismo vivo e os seres que nela habitam representassem suas células, o homem poderia ser visto como uma espécie de câncer. Basta imaginar que, somente no Brasil, são produzidas 230 mil toneladas de lixo por dia -o equivalente a duas filas de caminhões de lixo de cinco toneladas, ocupando o espaço de dez pontes Rio-Niterói.
Mas, ainda dentro dessa perspectiva, alguns indivíduos fariam muito bem o papel de anticorpo. Muitas vezes tachadas de "ecochatas" ou "biodesagradáveis", são pessoas que realizam ações corretas em doses homeopáticas, produzindo lá adiante transformações na sociedade inteira.
Plantar árvores em lugares públicos, priorizar o uso de transportes coletivos e de bicicleta, evitar consumir produtos supérfluos ou ecologicamente incorretos e separar o lixo para a reciclagem são alguns desses atos isolados de defesa da natureza -que estão cada vez menos ligados ao romantismo e mais à sustentabilidade.
O secretário do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, Eduardo Jorge, 55, chama essas atitudes de "revoluções pessoais". Ele dispensou o uso do carro oficial para ir trabalhar todos os dias de bicicleta. "Detesto ser chamado de ecologicamente correto. Sou um rebelde", diz ele, que afirma ter trocado a visão leninista que tinha aos 18 anos pelas pequenas transformações individuais.
"Devemos ser a mudança que queremos para o mundo, como dizia Gandhi. A postura do homem diante do lixo é mais importante do que mudar o governo. É a forma como ele se relaciona com a produção e o consumo de bens", afirma o secretário, que instalou duas caixas de papelão na sala de casa para colocar o lixo reciclável. "Minha mulher dizia: na sala não, é feio. E eu dizia: é lindo". As caixas acabaram na cozinha.
No fim do ano passado, o músico paulistano Marcelo Dworecki, 24, saiu do apartamento da mãe e foi morar com a namorada e um amigo numa casa. A primeira coisa que fez foi realizar um sonho antigo: instalar sua própria composteira (um lugar para transformar lixo orgânico em adubo) no quintal. Ele mistura os restos de alimentos, como cascas de frutas e legumes, com folhas secas em uma área reservada no jardim. O composto precisa ser remexido com um enxada todos os dias para evitar o mau cheiro.
Dworecki doa parte de seu lixo reciclável para uma cooperativa de catadores perto de sua casa. Os "lixos mais legais" (como latas e caixas de papelão em bom estado) ele leva para uma escola de música que realiza oficinas de construção de instrumentos com sucatas. Dessa forma, não sobra quase nada para o lixeiro. O administrador Rodrigo Gomes Ferreira, 24, morador de Florianópolis (SC), tem carro, mas, na maioria das vezes, deixa-o na garagem. "Procuro privilegiar a bicicleta como meio de transporte. Minha segunda alternativa é o ônibus. Uso o carro mais no fim de semana, quando vou a algum lugar mais longe."
Ferreira diz que fala sobre suas atitudes, mas não gosta de ser "missionário". "O que faz diferença é o próprio exemplo. A militância quase nunca funciona. Quem não está muito a fim acaba não mudando por birra", afirma. Seu exemplo já deu frutos. Quando ele era adolescente, criou o hábito de separar o lixo para reciclagem. Seu pai, que era síndico do prédio, levou a prática para o edifício todo.
Outro bom exemplo é a geógrafa Julia Ribeiro, 25. Na vila onde mora com o marido, no Rio de Janeiro, havia um canteiro meio abandonado, em uma área comum a todos os moradores. Ela resolveu fazer uma horta no local e plantou manjericão, hortelã, boldo, alface e cebolinha. Vendo a iniciativa, alguns vizinhos se animaram e começaram a cultivar também.
Para a geógrafa, o exemplo é a melhor forma de convencer as outras pessoas: "Eu simplesmente faço a minha parte. Não adianta encher o saco de ninguém, uma hora a ficha cai".
Já a química Rita Cavalcanti, 23, não consegue ficar quieta quando vê uma atitude antiecológica. "A gente não corrige só por corrigir, mas para criar consciência. No futuro pode faltar recursos para o meu neto." Ela conseguiu convencer seu noivo a apagar as luzes quando sai de um cômodo e a reaproveitar papéis.
Em casa, Rita e sua família adotaram várias atitudes responsáveis. A água que sai da máquina de lavar é armazenada em baldes e reaproveitada para lavar o chão do quintal. Os cartuchos de tinta para a impressora são recarregáveis. O papel usado é aproveitado para rascunho. Além disso, eles usam apenas pilhas recarregáveis. "Isso evita ter que comprar sempre e gerar mais pilhas para os lixões", diz.
O diretor de educação ambiental do Ministério do Meio Ambiente, Marcos Sorrentino, acredita que existam dois tipos de impacto ambiental derivados dessas iniciativas pessoais. "Um deles são mudanças no clima, no número de árvores das cidades e nos aterros sanitários que parecem pequenas, já que as transformações mais significativas vêm por meio de políticas públicas. O segundo, e mais importante, é cultivar uma postura de cuidado com a vida, que visa a construção de novos modelos de sociedade", afirma.
O biólogo Rogério Parentoni, doutor em ecologia e professor do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais, também acredita na força desse tipo de ação: "Se muitas pessoas adotarem essas mudanças de hábito, darão uma boa contribuição para que os recursos sejam preservados para as gerações que virão".
De acordo com Parentoni, há um efeito multiplicador associado às ações individuais. "Outras pessoas observam e acabam reproduzindo esse tipo de atitude", diz. Para ajudar na mudança de hábitos, o biólogo defende a educação ambiental em escolas. "Crianças são ótimos exemplos para os mais velhos. Os adultos ficam envergonhados se elas têm uma atitude ecologicamente correta e eles não."
"ecochatos"
A estudante de geografia da Universidade de São Paulo Gabriela Prol Otero, 23, já perdeu a conta de quantas vezes foi chamada de "ecochata". "Sou extremamente rotulada. Quando um professor alfineta os ecologistas, o pessoal da sala cochicha: 'A 'ecochata' não vai falar nada?'"
Entre as atitudes que adota no dia-a-dia, Gabriela toma banho rápido, fecha a torneira enquanto escova os dentes e não usa copos descartáveis. "Nem pensar. Levo uma garrafa plástica comigo e, no meu trabalho, cada um tem sua caneca para tomar café." No prédio onde mora, ela dispensa o elevador e usa a escada para descer e subir quatro andares. Apesar de ser chamada de chata, a estudante conseguiu convencer várias pessoas a agir de forma parecida. Mas já teve também brigas com a mãe, que costuma usar filmes plásticos para embalar alimentos e lavar o chão com mangueira. "Faço questão de limpar eu mesma usando balde para economizar água", diz.
Autor do livro "Meio Ambiente: Sua História - Como Defender a Natureza sem Ser um Ecochato" (ed. Insular), o escritor e jornalista Paulo Ramos Derengoski, 60, acredita que o termo "ecochato" esteja mudando de significado.
"Quando comecei a escrever sobre o ambiente, há mais de 20 anos, o 'ecochato' era um radical de direita da ecologia, um cidadão que não tinha uma visão dialética", afirma.
Segundo ele, essas ações pessoais de patrulha ecológica são importantes. "Dessa forma, ser chamado de 'ecochato' é um elogio. Daqui a pouco eles serão considerados 'ecolegais'. Acredito que a ecologia represente um novo idealismo para a juventude", diz. Em seu livro, Derengoski usa uma linguagem simples -no lugar do que ele chama de "ecologuês"- para defender políticas ecológicas sustentáveis. E rentáveis: "Tudo que não tiver valor econômico no futuro está condenado ao fracasso. É preciso juntar valor econômico a defesa do ambiente."
"reciclar é paliativo"
Quando se fala em ecologia hoje, geralmente a primeira idéia que vem à cabeça é a reciclagem. As pessoas esquecem que esse processo é industrial e também consome muita energia, além de produzir resíduos. Antes de reciclar, é preciso adotar os outros dois erres: redução e reutilização. É o que defende a bióloga e educadora Patricia Blauth, diretora da empresa Menos Lixo (www.menoslixo.com.br) que trabalha há mais de 15 anos como consultora em minimização de resíduos. "É como se a reciclagem autorizasse o desperdício. Reciclar é remediar. Reduzir a produção de lixo é prevenir", afirma ela, explicando que diminuir a geração de resíduos alivia também o impacto da produção, extração e distribuição dos produtos. "Imagine o tanto de energia que está contida em uma garrafa de vidro descartável. É muito melhor optar por uma garrafa de vidro retornável, que pode ser reutilizada 50 vezes, em média".
Além disso, nem todo produto que leva o símbolo formado por três setas é realmente reciclável. "Por exemplo, o isopor é potencialmente reciclável, mas esse processo não é economicamente viável. Ou seja, não deveria levar o símbolo."
Outra face a ser considerada é que nem sempre um produto reciclável completa o seu ciclo: uma garrafa PET nunca será transformada em outra igual. O plástico reciclado é utilizado para fazer outro tipo de produto.
De acordo com Blauth, o consumidor desorientado pela propaganda é induzido pelos símbolos e passa a comprar embalagens descartáveis achando que está, necessariamente, contribuindo para preservar o ambiente. "A Dinamarca, por exemplo, proibiu o uso de embalagens descartáveis para bebidas não-alcoólicas e cerveja. Em Portugal, há uma lei que prioriza o retorno de embalagens usadas. Portanto, o uso de descartáveis para bebidas não é uma tendência do mercado internacional."
A bióloga afirma que há opções ecologicamente corretas até mesmo para fraldas e absorventes. Segundo ela, em Londres existe um serviço especializado em lavar fraldas que sai muito mais barato do que comprar as descartáveis. "Um bebê produz cerca de uma tonelada de lixo só em fraldas descartáveis no primeiro ano de vida", diz. Para as mulheres, a geógrafa Diana Hirsh criou o aBIOsorvente, um absorvente íntimo reutilizável feito de algodão (pode ser comprado pelo site www.coisasdemulher.com.br).
consumo consciente
Quando vai a um supermercado, a estudante de geografia Gabriela Otero toma algumas precauções para fazer as compras. No seu carrinho, não entram alimentos transgênicos nem produtos embalados em bandejas de isopor. Folhas verdes, só se forem orgânicas ou hidropônicas. Tudo é carregado em sacolas plásticas que ela leva de casa. Ao lavar frutas e verduras, ela se preocupa em não gastar muita água. Ao se desfazer das embalagens, separa o lixo reciclável e envia para a coleta seletiva.
Gabriela pode ser considerada uma "consumidora consciente", ou seja, uma pessoa que busca a harmonia entre a sua satisfação, a preservação do ambiente e o bem-estar social.
O maior representante desse movimento no Brasil é o Instituto Akatu pelo Consumo Consciente (www.akatu.org.br). "Todos os dias fazemos escolhas ao comprar um produto ou serviço e ao decidir a forma de usá-lo e de descartá-lo. Temos responsabilidade até o fim. Para isso, precisamos de informação séria e fundamentada", diz Maluh Barciotte, gerente de mobilização social do instituto.
Segundo Barciotte, o Akatu trabalha na linha de "pequenos gestos, grandes transformações". "Buscamos mostrar para as pessoas que elas são protagonistas. Uma ação pequena feita durante muito tempo por alguém já tem um efeito fantástico. Quando é feita por muitas pessoas, o impacto é maior ainda", diz. Além disso, trabalha-se com a idéia de que o consumidor consciente age conscientemente em vários setores de sua vida, interferindo, por exemplo, nas políticas públicas.
Em 2002, o instituto realizou uma pesquisa para detectar se o brasileiro consome com consciência. Foram ouvidas 1.200 pessoas com idades entre 18 e 74, moradoras de nove regiões metropolitanas e duas capitais do país.
Os entrevistados tinham que responder a freqüência com que adotam 13 comportamentos -evitar deixar lâmpadas acesas em ambientes desocupados, usar o verso de folhas de papel já utilizadas e separar o lixo para reciclagem, entre outros.
De acordo com as respostas, os entrevistados foram classificados em quatro grupos: 3% foram considerados individualistas (que adotam no máximo dois comportamentos), 54% iniciantes (de três a sete comportamentos), 37% comprometidos (de oito a dez) e 6% conscientes (de 11 a 13).
Barciotte diz que o número de consumidores conscientes vem crescendo e que há menos preconceito contra eles. No entanto, ela observa que ainda tem gente que acha que quem se preocupa com a questão ambiental é "ecochato" ou "nerd". "Na verdade, são apenas pessoas que percebem que não há separação entre o homem e o ambiente e que preservar a natureza é melhor para todos, inclusive para elas."Pegadas ecológicas
Desperdício de alimentos e de água, embalagens em excesso, liberação de gases poluentes. Será que o planeta é capaz de fornecer tudo de que precisamos para manter nosso estilo de vida atual? Na década de 90, os canadenses Mathis Wackernagel, diretor do programa de sustentabilidade da ONG Redefining Progress, e William Rees, da Universidade British Columbia, decidiram medir a extensão dos recursos que usamos para verificar se eles excedem a capacidade de renovação do planeta.
O resultado é o conceito de "pegada ecológica" ("ecological footprint"), uma estimativa da área que é necessária para produzir o que consumimos e para absorver os resíduos que geramos. O cálculo leva em conta, entre outros fatores, terrenos agrícolas, florestas, área construída, alimentação, energia, transporte e bens de consumo.
É possível calcular a pegada ecológica de um só indivíduo, de um país ou da humanidade toda. Atualmente, o índice mundial é de 2,3 ha por pessoa, 20% a mais do que a capacidade de regeneração do planeta. Calcule sua pegada ecológica e descubra quantos planetas são necessários para manter seu estilo de vida: www.myfootprint.org (há opção em português).LIXO DOMÉSTICO
Informe-se com a prefeitura de sua cidade sobre as opções de coleta. Você também pode procurar saber se há instituições ou cooperativas de catadores que buscam o material. Nos sites www.cempre.org.br (Brasil), www.institutogea.org.br (São Paulo) e www.recicloteca.org.br (Rio de Janeiro), há listas de algumas entidades que fazem a coleta
PILHAS
Prefira pilhas recarregáveis. Apesar de conterem materiais tóxicos em sua composição, a legislação brasileira determina que as pilhas comuns devem ser jogadas no lixo. A reciclagem é, atualmente, inviável
BATERIAS DE CELULAR
Encaminhe para reciclagem, levando as baterias usadas aos pontos de venda das operadoras ou postos de assistência técnica das empresas produtoras.
Fonte: Instituto GEA- Ética e Meio Ambiente
Você sabia?
Lixo
Cada brasileiro descarta seu peso em embalagens por ano.
A cidade de São Paulo produz o equivalente a um prédio de 30 andares de lixo por dia.
Dos mais de 5.000 municípios brasileiros, apenas 28 possuíam algum tipo de coleta seletiva em 2004.
A queima de lixo não é uma boa solução, pois libera até 27 metais pesados e gases que geram chuva ácida.
Uma embalagem custa pelo menos 10% do preço do produto.
Vários países proibiram a distribuição gratuita de sacola plástica descartável.
Uma família de classe média joga fora, em média, 500 g de alimentos por dia. Em 20 anos, essa perda equivale a 3.600 quilos. Se 1 milhão de famílias reduzirem pela metade essa quantidade, 90 mil toneladas de comida serão economizadas a cada ano, o suficiente para alimentar 260 mil pessoas nesse período.
Energia
Uma lâmpada fluorescente ilumina mais do que uma incandescente e pode durar até dez vezes mais, mas contém substâncias tóxicas.
Se cada pessoa reduzir a ducha diária de 12 para 6 minutos, economizará energia para manter uma lâmpada acesa por sete horas. Se 1 milhão de famílias fizerem o mesmo, a economia diária será equivalente à potência prevista da Usina Nuclear Angra 3.
Água
A ducha de um apartamento gasta, em média, 160 litros de água durante um banho de dez minutos. Fechar o chuveiro para se ensaboar economiza cerca de 30 mil litros de água em um ano. Se 5.000 famílias adotarem o mesmo hábito, a água economizada em um ano será equivalente à quantidade que cai nas Cataratas do Iguaçu durante cinco minutos.
Se você escova os dentes com a torneira aberta durante dois minutos, gasta em torno de 13,5 litros de água, mas só precisaria de meio litro se abrisse a torneira apenas quando necessário. Se a população de Recife resolvesse escovar os dentes com a torneira fechada, a água economizada a cada dia seria suficiente para abastecer quase todos os habitantes de Florianópolis em um dia.
Ao lavar louça durante 15 minutos com a torneira aberta, gasta-se 240 litros de água. Se a torneira for aberta somente para o enxágüe, esse tempo pode ser reduzido para cinco minutos. Se apenas cinco famílias adotarem esse método por 20 anos, a água poupada (17,5 milhões de litros) dá para matar a sede de quase 9 milhões de pessoas em um dia.
Poluição do ar
Os principais responsáveis pela poluição do ar, que causa a morte de 3 milhões de pessoas por ano em todo o mundo, são os automóveis. Se você deixar de usar seu carro um dia por semana (considerando um percurso diário de 20 km), deixará de emitir por ano cerca de 440 kg de dióxido de carbono.
Extraído da Folha de São Paulo - Caderno Equilíbrio - 17/03/2005